Educação para a Paz

A FORÇA DO ENCONTRO DOS SERES FOI A MARCA DO III CÍRCULO MUNDIAL DA PAZ

 “O passado está a nossa frente” (Yaba ancestral Mãe Preta)

A educação ancestral foi o tema principal do III Círculo Mundial da Paz, que teve como atividade cultural de abertura, no dia 17 de janeiro, a exibição do documentário Batuque Gaúcho – as nações dos orixás, trazido pelo mestre griô Paraquedas sobre as comunidades de Terreiro de Batuque do Rio Grande do Sul, trazendo para a discussão o processo de educação que acontece nesses espaços de espiritualidade afro-gaúchas e a importância de olhar o nosso passado próximo.

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O tema do segundo dia de encontro faz referência a sabedoria dos mais velhos e coloca em debate os elementos para formação de professores a partir do paradigma de educação ancestral.  Carmem Bez Batti , Segone e Kelly Rocha de Souza David, que falou do jeito de ser viver e educar as crianças na Comunidade Morada da Paz, onde os filhos são de todos e todos tem a responsabilidade na educação dos  omades (crianças), sejam as iabas e os babas moradores, sejam os demoradores e visitantes da COMPaz. Pras crianças que moram aqui se torna  natural o movimento que fazemos de receber, acolher, preparar juntos  o alimento, levar  visitantes pra trilha, também elas acolhem e esplicam. Assim  nosso fazer, nosso jeito de ser , nosso jeito de viver vai constituindo esse saber. Aqui as crianças fazem bolo e pão, gostam de estar na cozinha, essa marca vai ficando do sagrado na comida que vem de ancestralidade africana e indígena. Budismo,  cosmo visão africana e indígena estão presentes nesta educação. Tambor, chocalho e mantra ajudam a passar nossos ensinamentos para nossas crianças, sejam da comunidade ou em outros localidades do entorno, como a Pimenta,  e de eventos que realizamos na CoMPaz, como a Colônia de Férias. Somos mestres, mas também somos aprendizes, é muito rico poder ouvi-los as, e se abrir pra esse pensamento  fortalece essa vivencia onde todos educam, conscientes da possibilidade de trazer o crístico pra essas pedras preciosas que são as crianças.

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Segone fala das suas vivências como filho de África, e das relações familiares de educação em Moçambique. Criado em uma família com a mãe vinda de uma criação onde  as mulheres tem mais poder em relação a educação dos filhos e com o pai de uma região onde o machismo é forte. Uma família de certa forma patriarcal e ora matriarcal.

As mulheres mais velhas da família materna mantêm a cumplicidade feminina, pois entendem que as mulheres detém os segredos da vida. Crescendo em uma comunidade que sempre negou a tradição ancestral, proibiu as manifestações nativas, criaram estatuto indígena (o colono português chamada de índio os nascidos na colônia de Moçambique e Angola, de habitos e costumes que diferenciavam dos demais cidadãos de cor escura). Quando chegou a independência, por uma questão estratégica, adotou-se o marxismo leninismo, que acreditava que combater a tradição, matar a tribo e eliminar o tribal daria lugar a um novo cidadão Moçambicano. Houve resistência dos que queriam manter seus rituais, e a reverencia aos deuses. Com a perseguição, os ritos continuaram, mas ficaram mais secretos, havia medo, mas à noite os mais velhos consultavam curandeiros de ervas, oráculos de ossos, de espíritos, mas oficialmente todos eram católicos apostólicos romanos. No entanto, nos últimos 20 anos há um postura de volta ao passado, pouco havia escrito sobre essas tradições. Todos da idade da minha mãe podiam educar, chamar a atenção de todas as crianças, crescendo juntos, comendo juntos, a idéia de comunidade. Ninguém trancava a porta da casa, éramos uma comunidade, quando íamos a escola, nossas professoras tinham o mesmo respeito que era dado às nossas mães e tias. As nações comungavam pelo respeito aos mais velhos.

Conta que quando chegou ao Brasil pra estudar antropologia, ficou espantado com as relações entre mais velhos e mais novos. Tem uma beleza no modo brasileiro que acaba com a distância de mais velhos e mais novos, mas ele não estava acostumado, por exemplo, a chamar professor pelo nome, porque ele tem um conhecimento que não tenho. Foi um choque cultural ouvir as crianças e adultos chamar pais pelo nome, pois em Moçambique a distância de idade, as vivências e conhecimentos de rituais merecem o respeito dos mais novos e era assim a educação dentro da família, onde foi educado pelas mulheres,

Estudioso dos rituais femininos, traz relato de ritos de passagem que no passado eram feitos na mata, onde as mulheres as mais novas, depois do primeiro ciclo, começavam as preocupações dos pais, mas não eram os pais responsáveis pela inserção e pela educação, os mais velhos eram responsáveis por isso, por isso os anciões são procurados pra compartilhar, é preciso que seja iniciada pra entender o próprio corpo, negociar com os homens, é um ritual que está ligado a ancestralidade, é uma coisa muito forte, mágico religiosa. Aos primeiros sinais de desenvolvimento, as raparigas são apresentadas à comunidade, às instituições, pra que a sociedade participe, doando alguma coisa para o rito de passagem e dando apoio moral. As meninas ficavam 2 ou 3 meses, porém agora ficam a grande maioria fica um mês pela pressão dos movimentos feministas, para que não tenham essa interrupção no processo de educação escolar. Em algumas religiões ainda são 2 ou 3. Os pais nesse período não podem fazer relações sexuais sob pena de lançarem a filha pra um mundo onde o caos reina, e não ser aceita. Pra garantir,  prendem fios no corpo do pai, se um desses fios se rompe, a mulher filha será rejeitada pela comunidade. Isso porque o corpo não é só corpo, é também espírito. O corpo é um registro da ancestralidade. Quem não conhece os familiares não pode chamar pelo sobrenome, principalmente em lugar impuro, como um bar, por exemplo, porque invoca os ancestrais; o rito de iniciação serve pra fazer a pessoas entender esse corpo mágico religioso pelo judaico cristão e pelo conhecimento cientifico.

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Carmem nos proporcionou uma vivência prática com a visão da educação biocêntrica. Esse nome coloca a vida dentro de todos os processos de educação e transformação, sem negar a ancestralidade e a tradição, a pulsação da vida. A visão biocêntrica diz que somos todos educadores, olha pro ser e vê nele a potência de ser, detentor do saber, afloramento das potencialidades de forma ilimitada, juntando ser, espírito e fazer. A dimensão da educação dos gestos que dentro do estudo da biodanza são gestos geradores de vida, arquétipos e registros, entra a ancestralidade, a consciência vital e traz a bagagem de toda a história da humanidade, para que tenhamos noção da totalidade, pra que a gente aprenda que tem sempre um pouco a aprender. Esse espaço nos leva a nos reconhermos, a entrar em outra dinâmica de existir, uma transformação que nos leva a ver nossa carência, que não são os produtos que a mídia mostra e que as metrópoles mostram que precisamos para viver; não é disso que o ser humano tem sede, os movimentos se inspiram nisso, em qualquer lugar do planeta serão entendidos, estão em nós e todos os seres humanos, a medida que é feito ele é melhor compreendido. A  dinâmica trazida por Carmem foi bastante forte e tocante, baseada no afeto, no encontro, no olhar pra dentro do outro e colocar-se a frente dele como um igual. Movimentos que parecem simples, mas que são gestos geradores que evocam o poder e a força do ser.

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Para falar sobre Cidadania, Linguagem e História, os convidados Paulo Sérgio Barbosa –PC, Eduardo Cezimbra e Claudia Rocha David – Cacau (Yamoro da Comunidade Morada da Paz – CoMPaz) foram guiados pelos tambores e pelas suas vivências.

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“Quando um velho morre é uma biblioteca que se queima”(dito Africano)  

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No terceiro Ipade do dia, Saberes Populares, saberes escolares e religião, as professoras Flávia Rocha David e Dayse Antakarana fizeram  seus relatos sobre vivências em educação com crianças e jovens. Se estamos de frente pra os desafios da educação é porque podemos contribuir neste processo, que não é fácil, mas necessário.

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“ Meu conceito de Jardim determina o que é praga ao redor de mim” (Afonso Romano de Sant’Ana em Textamentos in Chassot:61)

Flávia iniciou falando que quando criança somos mais espontaneos, nosso processo criativo é mais expansivo, e na adolescência vamos perdendo isso, quando mais firme na infância, mais fácil de buscar essa base na adolescência, reconectando com nossa criatividade. Contou que recorre a arte e a cultura para tratar das temáticas em sala de aula, que nem sempre são os conteúdos que ela prefere ou estão no programa, muitas vezes eles tem a possibilidade de definir o que estudar.  Conta que intuiu que mais que a vulerabilidade social, os adolescentes estão sujeitos a vulnerabilidade espiritual. Ferramentas que contribuem  pra que os jovens fiquem aprisionados como rádio, tv onde eles são estimulados a ter e não a ser, a bebida e o alcool, drogas que são conseqüência da frustração dessa busca material estimulada pelo sistema que leva a isso. Desconectos da sua essência, ele sonham em ser outro, e não eles mesmos.

A equipe também precisa fazer a limpeza e purificação interna pra enxergar quem são e o que representam como educadores, é preciso partir do processo da sensibilidade, pra fazer com que o jovem se reconecte com sua história. Se não mudar a forma de dar aula não tem transformação, o processo é que precisa ser diferente pra ecoar pra estrar nele e ele em nós, sentir nascer um educador e nascer um novo ser, e isso passa pelo saber ancestral e é preciso estar preparado espiritualmente pra esse processo.

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A dança popular nesse processo é um mecanismo importante, e aí entra o relato de Dayse, convidada por Flávia que fizesse um trabalho com os jovens de sua turma, que precisavam sair da cadeira, que precisam do novo, do desconhecido, da troca . Foi a dança de roda que conectou com a ancestralidade de igual pra igual, eles aderiram muito.

Dayse conta que se tornou educadora  em uma escola com uma turma que ninguém queria, eram os agitados. Mas ela quis, pra ter a experiência real da sala de aula. Os estágios são muito rápidos, não da tempo de preparar pra tudo que a educadora  precisa ser: mãe,  psicóloga,  amiga e tudo mais. Dentro da escola a educação popular não tem espaço, há um formato quadrado, com espelhos e cópia dos movimentos.

Propôs sentar no chão e foi uma proposição forte, assim como dar ao jovem  o poder da fala, outra estrategia  para uma aprendizagem significativa. Depois a roda se tornou rotina, pra saber como estavam, pra conhecer os objetos e instrumentos da dança, muitas vezes não tinha nem sala, não tinha espelho, não tinha radio, mas dança popular pode ser feita em qualquer lugar. A questão de gênero foi um desafio, há nessa idade a transformação do corpo, que influencia , eles não se conheciam,  se quer pegavam na mão em função da questão de gênero e sexualidade. Passou a ser normal pra eles, eles testam professor, nos primeiros meses, e sabendo que é primeira vez dentro da escola. Mesmo que em alguns dias se sentisse enfraquecida e quisesse sair correndo, entendeu que a dificuldade faz parte do processo de formação. Praticar o desapego é importante, com entrega e  amor que pelo que fazemos nos ajuda muito. Dançar é sentir, e  sentir dançando é uma importante elemento de ancestralidade. No final da fala, com a participação do educador John, todos participaram de uma roda de dança popular, que trouxe muita alegria e integração.

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Educação, Afetividade e Aprendizados –  a mão estendida é o início do abraço

O primeiro Ipade do último dia do III Círculo Mundial da Paz teve  a presença de Patricia,  representando o Bhrama Kumaris. Yashodhan da Comunidade Morada da Paz  abriu o diálogo falando das  parcerias com as diversas igrejas da região, como a Assembléia de Deus e da Igreja Católica,  e a tentativa de manter esse respeito e construção de possibilidades para a comunidade do entorno, pois Deus é como um sol, que nos agrega.  Essa dimensão das linguagens faz com que percebemos que algumas coisas são simples, especialmente para movimentos de paz interno, que faz com que ofertemos a paz para os outros, pois não ofertamos o que não temos. Lembrou que  José Luiz e Josemir, do Bhrama Kumaris, plantaram uma mangueira no território sagrado, e juntos os participantes do ritual de celebração do ano novo solar, escreveram  os seus sonhos e plantaram com aquela muda.

As árvores são muito importantes na CoMPaz, cada criança tem uma árvore no território, que tinha partes da área degradadas, mas que hoje tem árvores, grama, flores. As árvores são um símbolo forte, suas raízes, tronco e frutos dão continuidade aos nossos projetos. E ontem germinou a semente do baobá plantado  durante o retiro. A semente foi dada por Paulo Romeu, do Afro-Sul, quando representantes da comunidade foram ao encontro de Mestre Paraquedas, para conhecê-lo. Ficou muito tempo no bolso de um casaco, foi confundida com um chiclete mascado, com lixo, caiu no chão e foi devolvida mas foi encontrada e energizada pelos participante do retiro.

Já temos uma muda de baobá plantada no Território, que foi dada pela Casa de Cultura Tainã e Rede Mocambos e que coloca a Morada da Paz na Rota dos Baobás, projeto de reconhecimento da ancestralidade africana por toda a América Latina. Agora são duas árvores sagradas de muita significância par o povo africano.

Patrícia falou que a história dessa semente é a história de todos nós, somos sementes de paz, às vezes somos confundidos com lixo, com chiclete mascado, mas precisamos nos lembrar que somos sementes. A árvore é um símbolo e um elemento fundamental na representação da união dos povos.

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Yashodhan  lembra que somos a seiva da árvore, somos perigosos porque somos potência de transformação. A nutrição começa em nós, colhemos o que plantamos. Vivemos eras de processos educacionais baseadas no faz o que eu digo e não o que eu faço, e sabemos que isso se esvaneceu, porque são ações que nos tocam . Querer é poder, mas entre essas palavras tem o merecimento. Lança um desafio pra todos: trazer a verdade através da cultura e a arte, que  são transformadores, possibilidades de mudança, que rompe padrões e pode nos conectar com a semente original;  a espiritualidade que nos ajuda a conviver com nossa sensibilidade, conviver com a vida em sua plenitude, trabalhar a dimensão da frustração, do dia-a-dia, que é sempre diferente, não estamos bem todo tempo, e não estamos mal o tempo todo. Colocar-se no lugar do outro, a mão que acolhe só precisa ser estendida em direção do outro e o convívio, a comunidade, viver com o outro. Esse é o desafio: a arte, a espiritualidade e o convívio.

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Evocação aos Tambores Sagrados

Mestre Griô Paraquedas e Anderson (AfrosulOdomodê/Brasil)

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Celebração de Fechamento do III Círculo

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Um comentário sobre “Educação para a Paz

  1. Que lindo ver como a Morada da Paz cresceu e está sendo reconhecida! Lembro quando fomos com a escola (Amigos do Verde), bem no início. Fizemos uma caminhada na mata, entre outras atividades. O meninão da foto é o Fran? E ao lado, a Djey? Lindos! Parabéns Sarah, Denise, Cacau e todos que acreditaram e realizaram esse projeto. Beijos, Fátima (apoiativa do Fran e da Djey no Maternal I, na turma da Cris).

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