O despertar do Servir

Há muito tempo tenho estado em um processo intenso de despertar do meu papel como doula, já passei por diversos cursos e imersões, cada um com um papel fundamental na construção do papel da doula dentro de mim. Uma junção de conhecimentos e sabedorias que acredito e agradeço muito por ter tido acesso. Mas nada tem sido mais revelador do que estar entre as gestações, mergulhar profundamente na vida de cada mulher que acredita no seu parto, de cada homem que desperta sua força no equilíbrio entre sensibilidade e cuidado e de cada ser que se prepara para chegar nesta Terra.

Uma mistura de informações que se conectam para colaborar na descoberta da necessidade fundamental no processo de cada família. Necessidade essa que pode ser suprida com a doula, às vezes é através do diálogo, outras apenas ouvindo, outras ajudando a desvendar os medos, outras é preciso reconhecer que não se deve tocar nesse ponto, às vezes nossa missão com uma família seja trazer a unidade para o casal que vai acolher um ser e que precisa desses dois pólos vibrando em um campo de amor e entrega, em outras situações é preciso conduzir ao aterramento, às vezes precisamos lembrá-los de que o nascimento é, sim um evento fisiológico, que acontece primeiro na mente, mas também é um momento espiritual. Instigamos a abertura da mente e do corpo para sair do controle, possibilitamos um encontro com as sombras, incitamos a estarem dispostos a enfrentar a situação que vier, o plano B, o fora do plano. Outras vezes agimos como mães que transmitem confiança e orientam seus filhos para um caminho livre e independente, outras vezes somos como  avós que apoiam e acolhem a decisão tomada, mesmo que relute internamente em concordar. Com cada família aprendemos a usar o toque e a palavra como principais ferramentas de trabalho e quando devemos usa-las. A cada gestação desvendamos um pouquinho dos mistérios do parto, alido com a nossa própria experiência materna, com a intuição, com os conhecimentos ancestrais e técnicos. Aprendemos a reconhecer o poder de um canto, de um som, de uma erva, um aroma e de uma oração.

Entre todos esses papéis que vão despertando, há uma mulher que está por trás, disposta a servir outra mulher e desta doação recupera um valor há tanto tempo perdido: o de olhar a outra como um irmã, procurando saber a melhor forma auxiliar. O papel da doula não se resume à presença no parto ou na gestação, mas ela se manifesta a cada palavra que foi dita nesse processo e que reverberou durante o caminho, naquele diálogo que fez surgir uma dúvida ou uma certeza ou que acessou algum medo ou que possibilitou uma cura, não só para o parto, mas para a maternidade e para a vida desse casal e dessa criança.

Não se é doula quando se está no momento do trabalho de parto, mas quando se possibilita auxiliar a mãe e o pai a constituir a consciência do nascimento de um ser, a compreender a vida como uma oportunidade de reconstrução, que pra fazer uma semente germinar e crescer forte é preciso ter um solo fértil, arado, adubado de valores,  bons sentimentos e atitudes coerentes.

Ser doula é assumir uma missão, é trabalhar por um propósito para a humanidade, um trabalho que também é uma militância política feminista e feminina, que vira o jogo das regras do sistema obstétrico através da informação e por isso precisa ser valorizado e reconhecido. A doula deve saber do seu papel como um ser a serviço de uma nova geração de bem nascidos, e assim incorporar o seu papel de uma “agente de transformação por onde quer que ande.”

Eu sou BìMò, aquela que cuida no nascer e da vida, Yalossain da Irmandade da Casa da 7ª Ordem da Comunidade Morada da Paz.

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Imagem do site Doula por Natureza.

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